← Voltar ao blog
Análise de artigo Leitura crítica de estudo ou diretriz recente
Trauma

Choque hemorrágico e transfusão maciça · o que o PROPPR e o CRASH-2 mostraram

Choque hemorrágico e transfusão maciça · o que o PROPPR e o CRASH-2 mostraram

No trauma grave, quem morre de sangramento morre cedo, nas primeiras horas, e boa parte dessas mortes acontece antes de o paciente chegar ao centro cirúrgico. Durante décadas, a reposição seguiu uma ordem fixa: cristaloide primeiro, hemácias depois, plasma quando o coagulograma voltasse alterado. Dois ensaios mudaram essa ordem. O CRASH-2 colocou o ácido tranexâmico na primeira hora, e o PROPPR testou quanto plasma e quanta plaqueta acompanham cada bolsa de hemácias.

O PROPPR, em números

O ensaio PROPPR
Pacientes randomizados
680
com trauma grave e sangramento ativo
Centros de trauma
12
de nível I, na América do Norte
Proporções comparadas
1:1:1
contra 1:1:2 de plasma, plaquetas e hemácias
Desfechos primários
2
mortalidade em 24 horas e em 30 dias

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Holcomb et al., JAMA, 2015.

O PROPPR incluiu pacientes que chegavam com ativação máxima da equipe de trauma, já tinham recebido sangue na primeira hora e tinham previsão de transfusão maciça, pelo escore ABC ou pelo julgamento do cirurgião. Metade recebeu plasma, plaquetas e hemácias em proporção 1:1:1; a outra metade recebeu 1:1:2, com metade do plasma e das plaquetas por bolsa de hemácias. As caixas saíam do banco de sangue já montadas na proporção sorteada, até o controle do sangramento.

O que o ensaio achou

Resultados do PROPPR
Desfecho1:1:11:1:2Leitura
Mortalidade em 24 horas12,7%17,0%Diferença sem significância estatística
Mortalidade em 30 dias22,4%26,1%Diferença sem significância estatística
Hemostasia alcançada86,1%78,1%Mais pacientes com o sangramento controlado no 1:1:1
Morte por exsanguinação em 24 horas9,2%14,6%Menos mortes por sangramento no 1:1:1
ComplicaçõesSemelhantes nos dois gruposSem excesso de SDRA, falência orgânica ou trombose com mais plasma

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Holcomb et al., JAMA, 2015.

Os dois desfechos primários não alcançaram significância. Quem lê só a conclusão principal sai achando que a proporção tanto faz. A leitura completa diz outra coisa: o grupo 1:1:1 teve mais pacientes com hemostasia e menos mortes por exsanguinação, que é exatamente a morte que a transfusão tenta evitar, sem pagar com mais complicações.

Leitura crítica

O que pesar antes de aplicar o PROPPR
1Os dois braços receberam muito plasma. O 1:1:2 já era mais plasma do que a prática antiga, de cristaloide primeiro. O ensaio comparou duas estratégias de reposição precoce entre si, e por isso a diferença esperada era pequena.
2A diferença de mortalidade ficou abaixo da que o ensaio conseguia detectar. Os cerca de 4 pontos percentuais em 24 horas podem ser reais, e um ensaio com 680 pacientes não tinha poder para confirmá-los.
3Os centros eram de trauma nível I. Plasma descongelado à porta, plaqueta disponível e centro cirúrgico pronto. No hospital que leva 40 minutos para descongelar o plasma, a proporção 1:1:1 depende de organização prévia.
4Os desfechos secundários orientam, sem provar. Hemostasia e morte por exsanguinação favoreceram o 1:1:1 de forma consistente com a fisiologia, e foi esse conjunto que levou as diretrizes a adotar a reposição com plasma desde o início.

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Holcomb et al., JAMA, 2015.

O CRASH-2 e o relógio do ácido tranexâmico

O CRASH-2 randomizou 20.211 adultos com trauma e sangramento significativo, ou risco dele, em 274 hospitais de 40 países. O grupo do ácido tranexâmico recebeu 1 g em 10 minutos e mais 1 g em 8 horas. A mortalidade geral caiu de 16,0% para 14,5%, e a morte por sangramento, de 5,7% para 4,9%, sem aumento de eventos trombóticos.

A análise de 2011 mostrou o que fez do ácido tranexâmico uma decisão da primeira hora: o benefício aparece quando a droga entra em até 3 horas do trauma, e é maior quanto mais cedo ela entra. Depois de 3 horas, a morte por sangramento foi maior no grupo tratado. O prazo conta a partir do trauma, e o tempo de transporte já consumiu parte dele quando o paciente chega.

O que a diretriz europeia de 2023 faz com esses resultados

Reposição no trauma com sangramento grave
Trauma com choque hemorrágico ou previsão de transfusão maciçaÍndice de choque, escore ABC, classe de choque do ATLS, lactato e déficit de bases
↓
Nos primeiros minutosControle da compressão externa, torniquete, cinta pélvica
↓
Ácido tranexâmico 1 g em 10 minutos, se o trauma tiver menos de 3 horas, e mais 1 g em 8 horas
ReposiçãoCristaloide restrito; hemácias com plasma na proporção de pelo menos 1:2, ou hemácias com concentrado de fibrinogênio
↓
Pressão sistólica alvo de 80 a 90 mmHg até o sangramento parar, se não houver trauma craniano grave
Metas laboratoriaisExames repetidos, e testes viscoelásticos onde houver
↓
Hemoglobina de 7 a 9 g/dL, fibrinogênio acima de 1,5 g/L, plaquetas acima de 50 mil, cálcio iônico normal

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Rossaint et al., Critical Care, 2023. No trauma craniano grave, o alvo de pressão sobe para pressão arterial média de 80 mmHg ou mais, e o alvo de plaquetas para acima de 100 mil.

A diretriz europeia aceita duas formas de começar: plasma com hemácias, na proporção de pelo menos 1:2, ou concentrado de fibrinogênio com hemácias. A escolha depende do que o serviço tem à porta. O que ela desaconselha é a reposição longa com cristaloide, que dilui fatores de coagulação, esfria o paciente e piora a acidose.

O ATLS, na 11ª edição, de 2025, reforça a mesma lógica no atendimento inicial: controle da hemorragia exsanguinante antes da via aérea, cristaloide limitado, hipotensão permissiva e transfusão precoce, com protocolo de transfusão maciça acionado pela clínica.

Como saber quem vai precisar de transfusão maciça

Duas contas de beira-leito
Índice de choque
FC ÷ PAS
acima de 1 indica choque relevante
Escore ABC, 1 ponto cada
2 de 4
trauma penetrante, PAS até 90, FC de 120 ou mais, FAST positivo

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Rossaint et al., Critical Care, 2023. Escore ABC de 2 ou mais prevê transfusão maciça e foi um dos critérios de entrada do PROPPR.

A hemoglobina da chegada engana. O paciente perde sangue total, com glóbulos e plasma na mesma proporção, e a hemoglobina só cai depois que o cristaloide dilui o que restou. Uma hemoglobina de 11 na sala de emergência convive com uma perda de mais de um litro. O que mostra o tamanho do choque é a frequência, a pressão, a perfusão, o lactato e o déficit de bases.

Na prática do plantão

Os primeiros 30 minutos do choque hemorrágico
  1. 1
    Pare o que dá para parar por foraCompressão direta, torniquete no membro, cinta pélvica na suspeita de fratura de pelve. Dois acessos calibrosos e amostra para tipagem, gasometria com lactato, hemograma, coagulograma, fibrinogênio e cálcio iônico.
  2. 2
    Calcule o índice de choque e o escore ABCÍndice acima de 1 ou ABC de 2 ou mais: acione o protocolo de transfusão maciça já, sem esperar a hemoglobina.
  3. 3
    Ácido tranexâmico, se o trauma tiver menos de 3 horas1 g em 10 minutos e 1 g em 8 horas. Anote a hora do trauma no prontuário.
  4. 4
    Sangue no lugar do cristaloideHemácias com plasma desde a primeira bolsa, em proporção próxima de 1:1, com plaquetas. Pressão sistólica de 80 a 90 mmHg até a hemostasia, se não houver trauma craniano grave. Reponha cálcio e aqueça o paciente e os hemoderivados.
  5. 5
    Leve o paciente ao controle do sangramentoInstável com FAST positivo vai ao centro cirúrgico; tomografia é para quem respondeu à reposição. Embolização e cirurgia de controle de danos fazem parte da mesma decisão.
Índice de choque acima de 1 · protocolo de transfusão maciça Ácido tranexâmico em até 3 horas do trauma Plasma desde a primeira bolsa de hemácias

Em algum plantão você vai receber um motociclista pálido, frio, com pressão de 84 e uma hemoglobina de 11 que parece tranquilizar. O PROPPR e o CRASH-2 dizem o que fazer nos primeiros minutos: tratar o choque pela clínica, dar o ácido tranexâmico antes que o relógio passe de 3 horas e repor o que o paciente perdeu, sangue com plasma e plaquetas, enquanto alguém leva o paciente até quem vai fechar o vaso.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 32 anos, motociclista, chega 50 minutos depois de uma colisão com um carro, pálido e com a pressão caindo. Você vai calcular o índice de choque, decidir o protocolo de transfusão maciça, o ácido tranexâmico e a proporção dos hemoderivados, e escolher para onde ele vai.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Trauma grave, do atendimento inicial ao protocolo de transfusão maciça, é módulo do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

Curso de Urgências e Emergências →
Veja também

Acompanhe a Aevora para conteúdo diário de emergência, cardiologia e terapia intensiva.

Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.