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Neurologia

Estado de mal epiléptico · o que fazer aos 5, aos 20 e aos 40 minutos de crise

Estado de mal epiléptico · o que fazer aos 5, aos 20 e aos 40 minutos de crise

A maior parte das crises tônico-clônicas para sozinha em um ou dois minutos. A que passa de cinco minutos tem pouca chance de parar sem remédio, e cada minuto a mais torna o benzodiazepínico menos eficaz. Em algum plantão você vai receber um paciente convulsionando na porta, com a família dizendo que começou "faz um tempinho". O relógio dessa crise começou antes de você chegar, e a sequência das próximas horas se decide pelo tempo.

Quando a crise vira estado de mal

A definição da ILAE de 2015 usa dois tempos. O t1 é o momento em que a crise deve ser tratada como estado de mal, porque já dificilmente vai parar sozinha. O t2 é o momento a partir do qual a crise contínua pode deixar lesão neuronal permanente.

Os dois tempos da definição da ILAE
Crise tônico-clônica, t1 · tratar
5
minutos
Crise tônico-clônica, t2 · risco de lesão
30
minutos
Crise focal com perda de consciência, t1
10
minutos; t2 acima de 60

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Trinka et al., Epilepsia, 2015 (ILAE). Duas ou mais crises sem recuperação da consciência entre elas contam como uma crise contínua.

Na prática, o paciente que chega convulsionando, sem ninguém saber quando a crise começou, já está no t1. O tratamento começa na hora, sem esperar o exame, o acesso ou o eletroencefalograma.

As fases do tratamento

Estado de mal convulsivo no adulto, por fase
FaseO que fazerDoses no adulto
0 a 5 minutos · estabilizaçãoVia aérea, oxigênio, monitor, eletrocardiograma, glicemia capilar, acesso venoso, examesGlicemia abaixo de 60 mg/dL: tiamina 100 mg IV e depois 50 mL de glicose a 50% IV
5 a 20 minutos · benzodiazepínicoUma das três opções, na dose cheiaMidazolam 10 mg IM, dose única, acima de 40 kg; lorazepam 0,1 mg/kg IV, máximo 4 mg, pode repetir uma vez; diazepam 0,15 a 0,2 mg/kg IV, máximo 10 mg, pode repetir uma vez
20 a 40 minutos · segunda drogaUma das três, em dose única de ataqueLevetiracetam 60 mg/kg, máximo 4.500 mg; fosfenitoína 20 mg EF/kg, máximo 1.500 mg EF; valproato 40 mg/kg, máximo 3.000 mg. Sem nenhuma delas: fenobarbital 15 mg/kg
40 a 60 minutos · refratárioIntubação, infusão contínua de anestésico, eletroencefalograma contínuo, terapia intensivaMidazolam, propofol, tiopental ou pentobarbital em dose anestésica

Infográfico Aevora, elaborado a partir da diretriz da American Epilepsy Society, 2016. EF é equivalente de fenitoína. Onde a fosfenitoína falta, a Neurocritical Care Society aceita a fenitoína, 20 mg/kg IV, a no máximo 50 mg por minuto.

Dois erros de dose aparecem o tempo todo. O primeiro é o benzodiazepínico fracionado, em doses pequenas repetidas, que deprime a respiração sem parar a crise. O segundo é esperar o acesso venoso para começar: o midazolam intramuscular de 10 mg é a primeira opção da diretriz justamente porque dispensa a veia.

A segunda droga

O ESETT, publicado em 2019, sorteou pacientes com estado de mal que não respondeu ao benzodiazepínico para levetiracetam, fosfenitoína ou valproato, nas doses da tabela, infundidos em 10 minutos. As três pararam a crise em cerca de metade dos pacientes, sem diferença entre elas. A escolha passa a depender do que existe no hospital e do paciente: o valproato se evita na gestante e na doença hepática, e a fenitoína pede monitor e infusão lenta, porque causa hipotensão e arritmia quando corre rápido.

A Neurocritical Care Society recomenda a segunda droga para todo paciente em estado de mal, mesmo quando a crise parou com o benzodiazepínico, a menos que a causa tenha sido identificada e corrigida de vez. O efeito do benzodiazepínico passa, e a crise volta.

Quando a crise não para

Estado de mal refratário · crise que segue depois do benzodiazepínico e da segunda droga
  1. 1
    Intubação e infusão contínuaMidazolam com ataque de 0,2 mg/kg e infusão de 0,05 a 2 mg/kg/h, ou propofol com ataque de 1 a 2 mg/kg e infusão de 20 a 200 mcg/kg/min, pela Neurocritical Care Society.
  2. 2
    Eletroencefalograma contínuoO paciente sedado e intubado pode seguir em crise sem nenhum movimento. Sem o traçado, a dose da infusão é ajustada às cegas.
  3. 3
    Paciente que não acordaSe a consciência não volta depois de a crise motora parar, o estado de mal não convulsivo entra no diagnóstico, e só o eletroencefalograma o confirma.
Crise sem movimento ainda é crise Infusão contínua guiada pelo traçado Terapia intensiva

Na prática do plantão

Paciente convulsionando na porta, em ordem
  1. 1
    Hora de inícioPergunte a quem trouxe e anote. Sem a hora, considere que já passou de 5 minutos.
  2. 2
    Decúbito lateral, aspiração, oxigênio, monitorNada na boca. Proteja a cabeça e afaste o que pode machucar, sem conter os movimentos.
  3. 3
    Glicemia capilarAbaixo de 60 mg/dL: tiamina 100 mg IV e glicose a 50%, 50 mL.
  4. 4
    Benzodiazepínico na dose cheiaSem veia: midazolam 10 mg IM. Com veia: diazepam 0,15 a 0,2 mg/kg, máximo 10 mg, ou lorazepam 0,1 mg/kg, máximo 4 mg, repetidos uma vez se preciso.
  5. 5
    Segunda droga em seguidaLevetiracetam 60 mg/kg, valproato 40 mg/kg ou fosfenitoína 20 mg EF/kg, ou fenitoína 20 mg/kg a até 50 mg por minuto.
  6. 6
    CausaSódio, cálcio, magnésio, nível sérico do anticonvulsivante, função renal e hepática, toxicológico, gestação na mulher, tomografia de crânio depois de estabilizar.
Mais de 5 minutos · trate como estado de mal Midazolam IM dispensa a veia Segunda droga mesmo que a crise pare

O tratamento do estado de mal é uma corrida contra a resistência que a própria crise cria. Benzodiazepínico na dose cheia antes dos 10 minutos, segunda droga antes dos 40 e terapia intensiva se a crise seguir: quem cumpre esses tempos dá ao paciente a melhor chance de acordar como estava.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 36 anos, epiléptico, ficou sem o remédio há cinco dias. Chega convulsionando, e a esposa marcou a hora em que a crise começou. Você vai estabilizar, escolher o benzodiazepínico sem acesso venoso, calcular a segunda droga pelo peso e investigar por que ele não acorda logo.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Crise convulsiva e estado de mal epiléptico, do benzodiazepínico à infusão contínua, são treinados com casos cronometrados no curso de Urgências e Emergências da Aevora.

Curso de Urgências e Emergências →
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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.