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Toxicologia

Intoxicação exógena · abordagem inicial e os antídotos mais usados

Intoxicação exógena · abordagem inicial e os antídotos mais usados

Uma mulher de 23 anos chega trazida pelo namorado, sonolenta, com duas cartelas vazias na bolsa e a hora da última mensagem dela anotada no celular dele. Em algum plantão você vai receber esse paciente sem saber ao certo o que foi tomado, quanto e quando. A vontade é correr atrás do antídoto. Quem define o desfecho nas primeiras horas é a ordem do atendimento: via aérea, respiração, circulação, glicemia e eletrocardiograma, e só depois a pergunta sobre o veneno.

A ordem do atendimento

O paciente intoxicado morre das mesmas coisas que qualquer outro paciente grave: hipoxemia, hipoventilação, choque, arritmia, convulsão e hipoglicemia. Por isso o atendimento começa igual ao de qualquer paciente instável, com monitor, acesso, oxigênio quando a saturação pede e a via aérea avaliada pela capacidade de proteger e de ventilar. A glicemia capilar entra em todo rebaixamento de consciência, porque a hipoglicemia imita a intoxicação e se corrige em um minuto.

O eletrocardiograma de 12 derivações vem cedo. A atualização da American Heart Association de 2023 sobre intoxicações graves lembra que, na intoxicação por bloqueadores do canal de sódio, as alterações do eletrocardiograma costumam vir antes das arritmias ventriculares: o QRS alarga e aparece um desvio terminal do eixo para a direita, melhor visto em aVR. Esse traçado, feito nos primeiros minutos, muda o tratamento antes de qualquer resultado de laboratório.

A mesma atualização recomenda falar cedo com um toxicologista ou com um centro de informação toxicológica. No Brasil, o Disque-Intoxicação da Anvisa atende pelo 0800 722 6001, com ligação gratuita, e encaminha a chamada a um Centro de Informação e Assistência Toxicológica.

O que a cabeceira conta antes do laboratório

O exame físico agrupa os sinais em síndromes tóxicas. Elas apontam a família do remédio e o antídoto que pode servir, mesmo quando o nome exato ainda é desconhecido.

As síndromes tóxicas mais vistas no pronto-socorro
SíndromeO que se vêExemplos
OpioideSonolência, respiração lenta e superficial, pupilas puntiformesMorfina, fentanil, tramadol, metadona
Sedativo-hipnóticoSonolência com respiração em geral preservada, pupilas e sinais vitais pouco alteradosBenzodiazepínicos, barbitúricos, álcool
AnticolinérgicaTaquicardia, pele quente e seca, pupilas dilatadas, retenção urinária, agitação ou deliriumAntidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos
ColinérgicaSecreção brônquica abundante, broncoespasmo, bradicardia, pupilas puntiformes, fasciculaçõesOrganofosforados e carbamatos, como inseticidas e o chumbinho
SimpaticomiméticaTaquicardia, hipertensão, hipertermia, sudorese, agitaçãoCocaína, anfetaminas

Infográfico Aevora, síntese didática a partir das seções de opioides, benzodiazepínicos, bloqueadores do canal de sódio, organofosforados e simpaticomiméticos da atualização da American Heart Association de 2023. A intoxicação por mais de uma substância é comum, e os quadros se misturam.

Descontaminação: carvão ativado e lavagem gástrica

O carvão ativado em dose única tem uma janela curta. O documento de posição das sociedades americana e europeia de toxicologia clínica, de 2005, diz que ele não deve ser dado de rotina e pode ser considerado quando o paciente ingeriu quantidade potencialmente tóxica de uma substância adsorvida pelo carvão até uma hora antes. Em voluntários, a redução da absorção cai de cerca de 47% aos 30 minutos para cerca de 17% aos 120 minutos. O mesmo documento contraindica o carvão em quem não tem via aérea íntegra ou protegida, porque o paciente sonolento que vomita aspira.

A lavagem gástrica saiu da rotina. A atualização de 2013 das mesmas sociedades conclui que ela não deve ser feita de rotina, se é que deve ser feita, e lembra que ela se associa a complicações graves. Nos raros casos em que se indica, quem faz precisa ter treino.

Os números da primeira hora

Três números que mudam a conduta
Janela do carvão ativado em dose única
1
hora desde a ingestão, com via aérea protegida
QRS na intoxicação aguda por tricíclico
100
ms ou mais, risco de convulsão e arritmia
Paracetamol aos 4 horas da ingestão
150
µg/mL é a linha de tratamento do nomograma

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Chyka et al., Clinical Toxicology, 2005; Boehnert e Lovejoy, New England Journal of Medicine, 1985; e Dart et al., JAMA Network Open, 2023. No estudo de Boehnert, com 49 pacientes, ninguém com QRS abaixo de 100 ms convulsionou ou teve arritmia ventricular, e as arritmias só apareceram com QRS de 160 ms ou mais. O nível sérico do tricíclico não previu as complicações.

O paracetamol que não dá sinal nas primeiras horas

A intoxicação por paracetamol pode chegar sem sintoma nenhum e ainda assim lesar o fígado dias depois. O consenso americano e canadense de 2023 usa o nomograma de Rumack-Matthew com a linha de tratamento começando em 150 µg/mL aos 4 horas, e só aceita para essa decisão as dosagens colhidas entre 4 e 24 horas da ingestão. Quando a hora da ingestão é duvidosa, o consenso manda tratar a história como pouco confiável e, na dúvida, dar a acetilcisteína.

O regime de acetilcisteína recomendado entrega pelo menos 300 mg/kg nas primeiras 20 a 24 horas, por via oral ou venosa, e o tratamento só para quando os critérios de interrupção são cumpridos. Um detalhe pega muita gente: quando o paciente também tomou um anticolinérgico ou um opioide, que atrasam o esvaziamento do estômago, e a primeira dosagem vem acima de 10 µg/mL e abaixo da linha, o consenso pede uma segunda dosagem 4 a 6 horas depois da primeira. A curva pode cruzar a linha mais tarde.

Os antídotos mais usados e a dose inicial

Antídoto, indicação e dose inicial no adulto
AntídotoQuando usarDose inicial no adulto
NaloxonaOpioide com depressão respiratória0,2 a 2 mg venosa, intraóssea ou intramuscular, ou 2 a 4 mg intranasal, repetida a cada 2 a 3 minutos
FlumazenilBenzodiazepínico puro, em paciente selecionado0,2 mg, titulado até 1 mg; muitas contraindicações
Bicarbonato de sódioCardiotoxicidade de tricíclico e outros bloqueadores do canal de sódio50 a 150 mEq em bolus, titulado pelo QRS e pela pressão
AtropinaOrganofosforado e carbamato grave1 a 2 mg, dobrando a dose a cada 5 minutos até secar as secreções
PralidoximaOrganofosforado1 a 2 g, seguida de 400 a 600 mg/h
AcetilcisteínaParacetamol acima da linha do nomograma ou com história duvidosaPelo menos 300 mg/kg nas primeiras 20 a 24 horas
HidroxocobalaminaCianeto, como na inalação de fumaça de incêndio5 g
Azul de metilenoMetemoglobinemia1 a 2 mg/kg, repetido a cada hora se preciso
Anticorpo antidigoxinaIntoxicação por digoxina1 frasco para cada 0,5 mg ingerido; 10 a 20 frascos no paciente grave com dose desconhecida
Emulsão lipídica a 20%Anestésico local1,5 mL/kg até 100 mL, seguida de 0,25 mL/kg/min por até 30 minutos
Insulina em dose alta e glucagonBetabloqueador e bloqueador de canal de cálcio com choqueInsulina 1 U/kg e 1 a 10 U/kg/h; glucagon 2 a 10 mg

Infográfico Aevora, elaborado a partir da tabela de doses de antídotos da atualização da American Heart Association de 2023 (Lavonas et al., Circulation, 2023) e, para a acetilcisteína, de Dart et al., JAMA Network Open, 2023. A própria diretriz avisa que a dose ideal da maioria dos antídotos não é conhecida e que quase todos se repetem e se titulam pela resposta. O centro de informação toxicológica ajuda a ajustar a dose ao caso.

Dois antídotos pedem cuidado especial. A naloxona tem efeito mais curto que o de vários opioides, sobretudo os de liberação prolongada, e a diretriz prevê doses repetidas ou infusão; o paciente que acordou com naloxona pode voltar a dormir uma hora depois. O flumazenil reverte o benzodiazepínico, mas a diretriz classifica o seu uso como danoso em quem tem risco aumentado de convulsão ou de arritmia, e considera que o risco supera o benefício no coma de causa desconhecida. O usuário crônico de benzodiazepínico pode entrar em abstinência com convulsão refratária, e o paciente que tomou tricíclico junto pode arritmar.

O que cada achado manda fazer
  1. 1
    Pupilas puntiformes e respiração lentaVentilação com bolsa e máscara e naloxona. Se houver benzodiazepínico junto, a naloxona vem primeiro.
  2. 2
    QRS de 100 ms ou mais, R terminal em aVRBloqueio do canal de sódio. Bicarbonato de sódio em bolus, repetido até o QRS estreitar e a pressão subir.
  3. 3
    Secreção brônquica, bradicardia e broncoespasmoSíndrome colinérgica. Atropina imediata em doses que dobram, intubação precoce, equipamento de proteção e descontaminação da pele.
  4. 4
    Bradicardia e choque com betabloqueador ou bloqueador de cálcioVasopressor, insulina em dose alta com glicose e potássio monitorados; glucagon e cálcio conforme o agente.
  5. 5
    Ingestão intencional, qualquer que seja o remédioDosagem de paracetamol a partir de 4 horas da ingestão, porque ele chega calado.
Coma de causa desconhecida · flumazenil fica na gaveta QRS largo · bicarbonato antes do antiarrítmico Glicemia capilar em todo rebaixamento

Os limites

A maior parte das recomendações de antídoto vem de séries de casos, estudos observacionais e consenso de especialistas, e a própria atualização de 2023 diz que a dose ideal de muitos deles é incerta. A história trazida pelo acompanhante falha com frequência, a quantidade ingerida quase nunca é exata e a mistura de substâncias muda o quadro. Os cortes de QRS vêm de um estudo de 1985 com 49 pacientes e servem como sinal de alerta, sem garantir quem vai ou quem não vai complicar. A decisão da primeira hora se faz na cabeceira, com o exame, o eletrocardiograma, a glicemia e a gasometria.

Na prática do plantão

O paciente intoxicado, em ordem
  1. 1
    Via aérea, respiração, circulaçãoMonitor, acesso, oxigênio quando a saturação pede. Paciente que não protege a via aérea é intubado antes de qualquer descontaminação.
  2. 2
    Glicemia capilar e eletrocardiogramaNos primeiros minutos, com atenção ao QRS, ao QT e a aVR.
  3. 3
    Síndrome tóxicaPupilas, pele, frequência, temperatura, secreções e estado mental.
  4. 4
    Antídoto se houver indicação claraNaloxona, bicarbonato, atropina e os demais, titulados pela resposta.
  5. 5
    Descontaminação só quando cabeCarvão até 1 hora com via aérea protegida; lavagem gástrica fora da rotina.
  6. 6
    Paracetamol a partir de 4 horas, centro toxicológico e notificaçãoRepetir a dosagem se houver anticolinérgico ou opioide junto. Ligar para o 0800 722 6001. Na ingestão intencional, avaliação psiquiátrica antes da alta.
Estabilizar antes de investigar o veneno Eletrocardiograma nos primeiros minutos Na dúvida sobre o paracetamol, acetilcisteína

A intoxicação exógena assusta pela lista de substâncias, mas a primeira hora segue a mesma ordem de qualquer paciente grave, com o eletrocardiograma e a glicemia logo no começo. O antídoto certo, dado depois da estabilização e na dose titulada, salva o paciente; o antídoto dado por reflexo, como o flumazenil no coma sem causa, pode provocar a convulsão e a arritmia que o atendimento queria evitar.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Mulher de 23 anos, trazida sonolenta pelo namorado, com duas cartelas vazias na bolsa. Você vai estabilizar, ler o eletrocardiograma, escolher o antídoto e decidir o que fazer com o paracetamol.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

O paciente intoxicado na sala de emergência é um dos temas do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.