Dor no meio do abdome que começou depois do jantar, foi para as costas e não cedeu com nada, três episódios de vômito e uma lipase que voltou nove vezes acima do normal. Em algum plantão você vai receber esse paciente com a prescrição pela metade, e três decisões das primeiras horas vão pesar mais que qualquer exame: quanto soro correr, quando pedir a tomografia e quando deixar comer. Todas as três mudaram na última década, e a diretriz do American College of Gastroenterology de 2024 colocou cada uma no lugar.
O diagnóstico fecha com dois de três
A pancreatite aguda se diagnostica com dois de três critérios: dor abdominal compatível, lipase ou amilase acima de três vezes o limite superior e achado característico de imagem. A definição é da revisão de Atlanta de 2012 e foi mantida pela diretriz do ACG de 2024.
A dor típica é epigástrica ou no hipocôndrio esquerdo, contínua, com irradiação para o dorso. A diretriz chama atenção para dois detalhes: a intensidade da dor não se correlaciona com a gravidade, e dor em cólica ou localizada no abdome inferior sugere outro diagnóstico.
Com dor típica e lipase acima de três vezes, o diagnóstico está feito. A tomografia entra na chegada só quando a dúvida diagnóstica é real, como na dor atípica ou na enzima abaixo do corte.
| Critério | O que conta | O que atrapalha |
|---|---|---|
| 1. Dor · clínica | Epigástrica ou no hipocôndrio esquerdo, contínua, irradiada para o dorso | Intensidade sem relação com a gravidade; dor em cólica ou no abdome inferior sugere outra causa |
| 2. Enzima · laboratório | Lipase ou amilase acima de 3 vezes o limite superior; a lipase é a preferida | A amilase normaliza em 3 a 5 dias e pode estar normal na entrada |
| 3. Imagem · tomografia ou ressonância | Edema, borramento da gordura, coleção ou necrose | Feita cedo, subestima a necrose, que leva dias para se definir |
Infográfico Aevora, elaborado a partir da revisão de Atlanta (Banks et al., Gut, 2013) e da diretriz do American College of Gastroenterology (Tenner et al., 2024). Dois dos três critérios bastam.
A causa se procura na mesma hora
A ultrassonografia de abdome entra em todo paciente com pancreatite aguda para procurar cálculo na vesícula, e se repete se o primeiro exame for inconclusivo. A causa biliar muda o resto da internação: decide a CPRE quando há colangite e a colecistectomia antes da alta.
Sem cálculo e sem história importante de álcool, a diretriz manda dosar os triglicerídeos e considerá-los a causa, de preferência quando passam de 1.000 mg/dL. Acima dos 40 anos, sem causa definida, o tumor de pâncreas entra na lista.
A gravidade se define pela falência de órgão
A revisão de Atlanta separa a pancreatite em três graus, e o que os separa é a falência de órgão e as complicações locais.
| Grau | Falência de órgão | Complicação local ou sistêmica |
|---|---|---|
| Leve | Ausente | Ausente; costuma resolver na primeira semana |
| Moderadamente grave | Transitória, que resolve em até 48 horas | Coleção, necrose ou descompensação de doença prévia, com ou sem falência transitória |
| Grave | Persistente, por mais de 48 horas | Com ou sem complicação local |
Infográfico Aevora, elaborado a partir de Banks et al., Gut, 2013. A falência de órgão se mede pelo escore de Marshall modificado, com 2 pontos ou mais em sistema respiratório, cardiovascular ou renal. Em termos clínicos, a diretriz do ACG lista pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, PaO2 abaixo de 60 mmHg e creatinina acima de 2 mg/dL depois da hidratação.
O problema prático é que a gravidade só se define depois de 48 horas, e a decisão de onde internar se toma na primeira. A diretriz de 2024 reconhece que nenhum escore e nenhum exame de imagem prevê com precisão quem vai evoluir mal, e propõe olhar para fatores de risco simples na entrada: idade acima de 55 anos, obesidade, alteração do nível de consciência, comorbidades, síndrome da resposta inflamatória sistêmica, nitrogênio ureico acima de 20 mg/dL ou subindo, hematócrito acima de 44% ou subindo, creatinina elevada, derrame pleural e infiltrado pulmonar.
Falência de órgão ou resposta inflamatória sistêmica pedem leito monitorizado, e o quadro leve segue vigiado nas primeiras 48 horas, a janela em que a falência aparece.
Os números que guiam as primeiras horas
Infográfico Aevora, elaborado a partir da diretriz do ACG de 2024 e da revisão de Atlanta de 2012. Com hipovolemia, a diretriz acrescenta um bolus de 10 mL/kg antes da infusão contínua.
Hidratação: moderada, com Ringer, reavaliada em 6 horas
Durante anos se ensinou a hidratação agressiva da pancreatite, com vários litros nas primeiras horas. O estudo WATERFALL, publicado em 2022, comparou as duas estratégias com Ringer lactato. O grupo agressivo recebeu bolus de 20 mL/kg e 3 mL/kg/h; o grupo moderado, bolus de 10 mL/kg só se havia hipovolemia e 1,5 mL/kg/h. O estudo foi interrompido na análise interina com 249 pacientes. A sobrecarga de volume aconteceu em 20,5% do grupo agressivo e em 6,3% do moderado, e a evolução para pancreatite moderadamente grave ou grave não diferiu (22,1% contra 17,3%).
A diretriz do ACG de 2024 incorporou o resultado. Ela sugere hidratação moderadamente agressiva, com bolus adicional se houver hipovolemia, e Ringer lactato no lugar do soro fisiológico. No paciente sem hipovolemia, a infusão inicial não passa de 1,5 mL/kg/h; no hipovolêmico, entra antes um bolus de 10 mL/kg. A diretriz estima que a maioria dos pacientes se beneficia de 3 a 4 litros nas primeiras 24 horas, conforme o peso.
O volume se reavalia em intervalos curtos nas primeiras 6 horas e depois ao longo de 24 a 48 horas, com frequência cardíaca, pressão e diurese, e com o objetivo de ver o nitrogênio ureico cair. Idosos, cardiopatas e renais crônicos pedem mais cautela.
- 1Taquicardia, mucosas secas, hematócrito altoHipovolemia. Bolus de 10 mL/kg de Ringer lactato e depois 1,5 mL/kg/h, com reavaliação em poucas horas.
- 2Sem sinal de hipovolemiaRinger lactato a até 1,5 mL/kg/h, sem bolus. Reavaliar em 6 horas.
- 3Febre, icterícia e dor em hipocôndrio direito com cálculo na vesículaColangite associada. CPRE nas primeiras 24 horas.
- 4Hipotensão, hipoxemia ou creatinina subindo apesar do volumeFalência de órgão. Leito monitorizado ou terapia intensiva; se durar mais de 48 horas, a pancreatite é grave.
- 5Estertores, saturação caindo, edemaSobrecarga de volume. Reduzir a infusão e reavaliar o alvo.
Tomografia, antibiótico e jejum
Tomografia na entrada. A diretriz sugere não fazer tomografia de rotina na admissão para estimar a gravidade. Ela fica para o paciente com diagnóstico duvidoso ou que não melhora nas primeiras 48 a 72 horas de internação e hidratação. Pela diretriz da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência de 2019, a necrose se define na tomografia com contraste depois de 72 horas do início.
Antibiótico profilático. A diretriz do ACG sugere não usar antibiótico profilático nem na pancreatite grave. Antibiótico entra para infecção documentada, como colangite, pneumonia ou necrose infectada.
Jejum. Na pancreatite leve, a diretriz sugere alimentação oral precoce, nas primeiras 24 a 48 horas, conforme a tolerância, começando direto com dieta sólida pobre em gordura, sem a escada de líquidos. Esperar a lipase normalizar para liberar a dieta não tem apoio. Na forma moderadamente grave ou grave, a nutrição enteral, por sonda nasogástrica quando preciso, previne complicações infecciosas, e a parenteral fica para quando a via enteral não é possível.
A vesícula e a CPRE
Na pancreatite biliar com colangite, a CPRE nas primeiras 24 horas reduz morbidade e mortalidade. Sem colangite, a diretriz sugere tratamento clínico no lugar da CPRE precoce, nas primeiras 72 horas. Suspeita de cálculo no colédoco sem colangite e sem icterícia se investiga por colangiorressonância ou ecoendoscopia.
Na pancreatite biliar leve, a colecistectomia deve ser feita cedo, de preferência antes da alta. O paciente que recebe alta com os cálculos na vesícula e a cirurgia marcada para semanas depois fica exposto a um segundo episódio de pancreatite nesse intervalo.
Os limites
A hidratação moderada do WATERFALL foi testada num estudo interrompido cedo, com 249 pacientes e poucos casos graves, e a diretriz classifica as recomendações de volume e de Ringer como condicionais, com evidência de baixa qualidade. O paciente hipovolêmico, em choque ou com perdas grandes vai precisar de mais volume que o protocolo, e o que decide é a reavaliação à beira do leito.
A classificação de Atlanta é feita em retrospecto, e nenhum fator de risco da entrada prevê com segurança quem vai ter falência persistente.
Na prática do plantão
- 1Fechar o diagnósticoDor compatível e lipase acima de 3 vezes o limite. Tomografia só se houver dúvida.
- 2Avaliar risco e leitoSinais vitais, saturação, nível de consciência, hematócrito, nitrogênio ureico, creatinina. Falência de órgão ou resposta inflamatória sistêmica vão para leito monitorizado.
- 3Hidratar com Ringer lactatoBolus de 10 mL/kg só se hipovolêmico; depois até 1,5 mL/kg/h. Analgesia adequada desde o início.
- 4Procurar a causaUltrassonografia de abdome; triglicerídeos se não houver cálculo nem álcool.
- 5Reavaliar em 6 horasFrequência, pressão, diurese, nitrogênio ureico, sinais de sobrecarga. Ajustar o volume.
- 6Alimentar e programar a vesículaDieta sólida pobre em gordura em 24 a 48 horas no quadro leve; colecistectomia antes da alta na causa biliar.
A pancreatite aguda leve resolve em poucos dias quando recebe volume na medida, analgesia e comida cedo, e a biliar só termina com a vesícula retirada. O soro em excesso, a tomografia sem indicação e o antibiótico sem infecção expõem o paciente a sobrecarga de volume, contraste e resistência bacteriana, sem benefício demonstrado nos estudos que a diretriz revisou.
Agora é a sua vez de atender
Mulher de 52 anos, com dor em faixa no alto do abdome desde o jantar e vômitos, e uma lipase nove vezes acima do normal. Você vai fechar o diagnóstico, decidir quanto soro correr, se pede tomografia e antibiótico, e quando ela volta a comer.
Atender o caso →Fontes
- Tenner S et al. American College of Gastroenterology guidelines, management of acute pancreatitis. American Journal of Gastroenterology, 2024.
- Banks PA et al. Classification of acute pancreatitis 2012, revision of the Atlanta classification and definitions by international consensus. Gut, 2013.
- de-Madaria E et al. Aggressive or moderate fluid resuscitation in acute pancreatitis (WATERFALL). New England Journal of Medicine, 2022.
- Leppäniemi A et al. 2019 WSES guidelines for the management of severe acute pancreatitis. World Journal of Emergency Surgery, 2019.
- IAP/APA/EPC/IPC/JPS Working Group. International Association of Pancreatology revised guidelines on acute pancreatitis 2025. Pancreatology, 2025.
As primeiras horas da dor abdominal grave estão entre os eixos do curso de Urgências e Emergências da Aevora.
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