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Análise de artigo Leitura crítica de estudo ou diretriz recente
Tromboembolismo pulmonar

TEP de alto risco · quando trombolisar e com qual dose

TEP de alto risco · quando trombolisar e com qual dose

Pressão de 78 por 48 depois de meio litro de soro, frequência de 128, saturação de 86% com máscara e um ventrículo direito que ocupa metade do coração no ultrassom. Em algum plantão você vai ter esse paciente na frente e um frasco de alteplase na farmácia, e a decisão vai caber a você: trombolisar agora, com qual dose, e o que fazer se ele piorar no meio da infusão. A diretriz americana de embolia pulmonar de 2026 mudou o vocabulário dessa decisão, e vale entender o que ela diz antes de abrir o frasco.

O documento analisado

Em fevereiro de 2026, a American Heart Association e o American College of Cardiology publicaram, com outras oito sociedades, a primeira diretriz das duas entidades dedicada à embolia pulmonar aguda no adulto (Creager et al., Circulation 2026). A mudança mais visível é a classificação: os termos maciça e submaciça dão lugar às categorias clínicas A a E, ordenadas do menor ao maior risco. Na Europa, a referência segue sendo a diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2019, que coloca a reperfusão primária, na maioria das vezes a trombólise sistêmica, como o tratamento de escolha no paciente com instabilidade hemodinâmica.

O paciente da cena é o alto risco da diretriz europeia e a categoria E1 da americana. Para o plantão, o que importa é a fronteira entre as categorias D e E, onde muda a força da recomendação de trombolisar.

As categorias que decidem a trombólise

As duas categorias mais graves da diretriz AHA/ACC de 2026
CategoriaDefinição
D1 · hipotensão transitóriaPressão sistólica abaixo de 90 ou queda maior que 40 mmHg, que dura menos de 15 minutos ou responde ao soro, sem sinal de hipoperfusão
D2 · choque normotensoPressão preservada com qualquer sinal de hipoperfusão: lactato acima de 2 mmol/L, lesão renal aguda, diurese abaixo de 0,5 mL/kg/h, alteração do estado mental, índice cardíaco abaixo de 2,2 ou pressão média abaixo de 60
E1 · insuficiência cardiopulmonarHipotensão recorrente ou persistente com choque cardiogênico
E2 · choque refratário ou paradaChoque cardiogênico refratário ou parada cardíaca

Tabela Aevora, elaborada a partir da Figura 2 e da seção 3.2 de Creager et al., Circulation 2026. Um modificador respiratório (R) se acrescenta à categoria quando há hipoxemia importante, por exemplo D2R. As categorias A a C reúnem o paciente sem sintomas e o paciente estável, com ou sem disfunção do ventrículo direito e troponina alterada.

A categoria D dá nome ao paciente que já está em choque sem estar hipotenso e ao que teve hipotensão por alguns minutos e se recuperou com soro. Os dois podem piorar nas horas seguintes.

Quando trombolisar · a recomendação por categoria

Trombólise sistêmica com anticoagulação, comparada à anticoagulação sozinha
CategoriaClasseO que a diretriz diz
E1 e E22aRazoável, com risco de sangramento aceitável, para reduzir mortalidade e recorrência
D1 e D22bPode ser considerada, para evitar a piora clínica
C32bBenefício incerto
A a C23, danoNão deve ser usada, pelo risco de sangramento maior e hemorragia intracraniana
Dose reduzida2bPode ser considerada em quem vai trombolisar, para reduzir o sangramento

Tabela Aevora, elaborada a partir das recomendações da seção 4.4.1 de Creager et al., Circulation 2026. Nível de evidência C-LD nas quatro primeiras linhas e B-R na de dano. Na categoria E1, a mesma diretriz considera razoáveis (classe 2a) a trombectomia mecânica e a embolectomia cirúrgica.

A classe 2a na categoria E é mais modesta que o "tratamento de escolha" europeu, e a diretriz americana explica: a evidência no paciente hipotenso se resume a quatro ensaios pequenos, com 224 pacientes, e só um deles incluiu apenas pacientes das categorias E1 e E2, com 8 pacientes antes de ser interrompido. A redução do trombo e do ventrículo direito é consistente; a queda de mortalidade aparece como tendência nas metanálises.

Na outra ponta, o PEITHO (Meyer et al., NEJM 2014) randomizou 1.006 pacientes normotensos com disfunção do ventrículo direito e troponina positiva para tenecteplase ou placebo, os dois com heparina. A tenecteplase reduziu a morte ou a descompensação em 7 dias de 5,6% para 2,6%, ao preço de sangramento extracraniano maior em 6,3% contra 1,2% e acidente vascular cerebral em 2,4% contra 0,2%, quase todos hemorrágicos. A mortalidade em 30 dias não diferiu, e quem descompensou com heparina sozinha se beneficiou da trombólise de resgate. Por isso o paciente estável fica anticoagulado e vigiado, com o trombolítico guardado para a piora.

Com qual dose

Os números da alteplase na embolia pulmonar
Dose padrão de alteplase, em infusão contínua
100
mg em 2 horas
Regime acelerado, sem aprovação oficial
0,6
mg/kg em 15 minutos, no máximo 50 mg
Janela de maior benefício desde o início dos sintomas
48
horas, com efeito ainda possível até 6 a 14 dias

Infográfico Aevora, elaborado a partir da Tabela 10 e da seção 6 da diretriz da ESC de 2019 (Konstantinides et al.) e da seção 4.4.1 de Creager et al., Circulation 2026. A dose de 100 mg é fixa, sem cálculo por peso.

A diretriz americana registra que a alteplase de 100 mg em 2 horas é o regime mais usado, e que nenhum ensaio comparou os trombolíticos entre si. A tenecteplase foi estudada em ensaios como o PEITHO, sem aprovação para a embolia pulmonar nos Estados Unidos. Um erro comum é usar a dose de outra doença, calculada por peso como no acidente vascular cerebral ou com bolus e duas fases como no infarto. O regime acelerado de 0,6 mg/kg em 15 minutos aparece na diretriz europeia sem aprovação oficial, e na prática fica para o paciente que está parando.

A dose reduzida ganhou espaço em 2026. A diretriz americana cita um ensaio de 118 pacientes com instabilidade ou obstrução extensa em que 50 mg tiveram eficácia semelhante a 100 mg com menos sangramento, recomenda a dose baixa como 2b e aguarda o PEITHO-3. No plantão, ela é opção para o paciente com risco de sangramento mais alto, sem substituir a dose padrão. A heparina não fracionada pode correr junto com a alteplase, segundo a diretriz europeia.

O que pesa contra

Contraindicações à trombólise na embolia pulmonar
AbsolutasRelativas
Acidente vascular cerebral hemorrágico ou de causa desconhecida em qualquer épocaAtaque isquêmico transitório nos últimos 6 meses
Acidente vascular cerebral isquêmico nos últimos 6 mesesAnticoagulação oral
Neoplasia do sistema nervoso centralGestação ou primeira semana pós-parto
Trauma maior, cirurgia ou trauma craniano nas últimas 3 semanasPunção em local não compressível
Diátese hemorrágicaReanimação traumática
Sangramento ativoHipertensão refratária, sistólica acima de 180 mmHg; doença hepática avançada; endocardite infecciosa; úlcera péptica ativa

Tabela Aevora, elaborada a partir da Tabela 10 da diretriz da ESC de 2019 (Konstantinides et al.). Na metanálise de 15 ensaios citada pela diretriz americana de 2026, a trombólise teve 9,9% de sangramento grave e 1,7% de hemorragia intracraniana.

Na categoria E, a contraindicação relativa se pesa contra o risco de morrer pela embolia. Na absoluta, a reperfusão segue por outra via: trombectomia mecânica ou embolectomia cirúrgica, as duas classe 2a na categoria E1, onde houver equipe.

O que cada achado manda fazer
  1. 1
    Hipotensão que passa de 15 minutos ou volta depois do soro, com sinal de choqueCategoria E1, alto risco. Sem contraindicação absoluta, alteplase 100 mg em 2 horas com heparina.
  2. 2
    Contraindicação absoluta no paciente E1Reperfusão por cateter ou cirurgia. Acione a equipe de embolia pulmonar ou a transferência sem esperar.
  3. 3
    Pressão normal com lactato alto, rim falhando ou confusãoChoque normotenso, D2. Terapia intensiva, anticoagulação, reperfusão discutida caso a caso.
  4. 4
    Estável, ventrículo direito dilatado e troponina altaC3. Anticoagulação e vigilância; trombolítico só se descompensar.
  5. 5
    Parada com embolia confirmadaTrombólise ou embolectomia (2a). Com embolia suspeita, trombólise pode ser considerada (2b).
Paciente estável sem disfunção do ventrículo direito · trombolítico faz mal Choque por embolia sem contraindicação · 100 mg em 2 horas Ventrículo direito dilatado · volume com cautela

A parada cardíaca e o choque refratário

Nas diretrizes de ressuscitação da AHA de 2025, com embolia confirmada como causa da parada, trombólise, embolectomia cirúrgica e embolectomia percutânea são razoáveis (2a); com embolia suspeita, a trombólise pode ser considerada (2b); o suporte extracorpóreo é razoável nas duas (2a). O tempo de reanimação depois do trombolítico ficou sem número: a diretriz chama a duração ideal de incerta. No choque refratário E2, a diretriz de embolia considera razoável a oxigenação extracorpórea venoarterial onde houver estrutura (2a).

O que vem junto da trombólise

Vasopressor ou inotrópico no choque por embolia, das categorias D2 a E2, é classe 1. Volume entra com cautela: a diretriz americana admite considerá-lo nas categorias D1 e D2 com suspeita de pré-carga baixa (2b), e a europeia fala em prova modesta, de até 500 mL. A sedação profunda e a ventilação mecânica sem indicação clara nas categorias C a E são classe 3 de dano, porque a indução e a pressão positiva podem derrubar o ventrículo direito em falência; se a intubação for inevitável, vasopressor e inotrópico ficam prontos à beira do leito (classe 1).

Os limites

A trombólise na categoria E se apoia em poucos pacientes randomizados, e a dose reduzida em estudos pequenos e abertos. A diretriz europeia de 2019 é anterior às categorias A a E, e o choque normotenso não tem nome próprio nela. E a categoria muda com o tempo: o paciente D1 das 22 horas pode ser E1 às 23.

Na prática do plantão

Embolia pulmonar com hipotensão · os primeiros 30 minutos
  1. 1
    Confirme sem levar o instável ao corredorUltrassom à beira do leito: ventrículo direito dilatado e trombose venosa proximal.
  2. 2
    ClassifiqueDuração da hipotensão, resposta ao soro, lactato, diurese, consciência. D ou E.
  3. 3
    Contraindicações em voz altaAbsolutas e relativas, com o paciente ou o familiar.
  4. 4
    Categoria E sem contraindicação absolutaAlteplase 100 mg em 2 horas, heparina, noradrenalina, sem mais volume.
  5. 5
    Reavalie durante e depois da infusãoPressão, lactato, ventrículo direito, sangramento. Sem resposta, cateter, cirurgia ou suporte extracorpóreo.
Hipotensão por mais de 15 minutos · categoria E Alteplase 100 mg em 2 horas · dose fixa Contraindicação absoluta · reperfusão por cateter ou cirurgia

A trombólise na embolia pulmonar se decide pela categoria do paciente, e a categoria se decide pela pressão, pela perfusão e pelo tempo. Quem reconhece o choque cedo e conhece a dose certa ganha os minutos em que o ventrículo direito ainda pode se recuperar, e quem trombolisa o paciente estável sem disfunção do ventrículo direito expõe a hemorragia intracraniana sem nenhum benefício a ganhar.

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Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.