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Hipoglicemia no pronto-socorro · como corrigir e como achar a causa

Hipoglicemia no pronto-socorro · como corrigir e como achar a causa

A filha encontrou a mãe sentada no sofá, sem responder, suando frio. A glicemia capilar da ambulância marcou 38. Em algum plantão você vai receber essa paciente, vai fazer a glicose na veia e vai vê-la acordar e perguntar onde está. Esse é o momento em que muita gente encerra o atendimento. A parte que decide se ela volta em coma de madrugada começa depois: qual remédio baixou o açúcar, quanto tempo ele ainda age e o que mudou no corpo dela para a dose de sempre virar uma dose tóxica.

Por que a hipoglicemia é emergência

O cérebro depende da glicose do sangue minuto a minuto, e a hipoglicemia prolongada deixa sequela neurológica. Ela imita AVC, intoxicação e crise epiléptica, por isso a glicemia capilar entra na avaliação de todo paciente com alteração do nível de consciência.

A diretriz da Endocrine Society de 2009, escrita por Cryer e colaboradores, lembra que nenhum valor isolado de glicose define hipoglicemia em todas as pessoas, e que os sintomas costumam aparecer perto de 55 mg/dL. Para quem tem diabetes, os Standards of Care da American Diabetes Association de 2026 trazem uma classificação prática em três níveis, que serve bem ao pronto-socorro.

Os três níveis da ADA

Classificação da hipoglicemia na pessoa com diabetes
NívelCritérioO que significa
Nível 1Glicose abaixo de 70 e igual ou acima de 54 mg/dLAlerta. Pede tratamento e revisão do que causou a queda
Nível 2Glicose abaixo de 54 mg/dLHipoglicemia clinicamente importante, com risco de sintomas neuroglicopênicos
Nível 3Alteração mental ou física que exige ajuda de outra pessoa para tratar, qualquer que seja a glicoseEvento grave. Pode evoluir para perda de consciência, convulsão e morte

Infográfico Aevora, elaborado a partir da tabela 6.4 dos Standards of Care in Diabetes 2026 da American Diabetes Association (Diabetes Care, 2026). Toda paciente que chega ao pronto-socorro trazida por alguém, confusa ou desacordada, está no nível 3.

Corrigir primeiro · a dose de cada situação

A via depende de uma pergunta: o paciente engole com segurança? Quem está acordado, orientado e engole recebe glicose pela boca. Quem está confuso, sonolento, agitado demais, convulsionando ou em jejum para procedimento recebe pela veia.

Como corrigir, conforme o estado do paciente
SituaçãoCondutaReavaliar
Acordado e engole15 a 20 g de carboidrato de absorção rápida: suco, açúcar dissolvido em água, tabletes de glicoseGlicemia em 10 a 15 minutos. Abaixo do alvo, repetir, até três ciclos
Não engole, com acesso venoso15 a 20 g de glicose venosa: 100 mL de glicose a 20% ou 200 mL a 10% em 15 minutos. Com a ampola de 50%, 40 mL dão 20 g, em veia calibrosaGlicemia em 10 minutos. Abaixo do alvo, repetir a dose
Não engole, sem acessoGlucagon 1 mg intramuscular, e seguir tentando a veiaEfeito em até 15 minutos. Uma segunda dose raramente funciona quando a primeira falhou
RecuperadoCarboidrato de absorção lenta, cerca de 20 g, ou a refeição. Depois do glucagon, o dobroGlicemia seriada nas horas seguintes

Infográfico Aevora, elaborado a partir da diretriz de hipoglicemia hospitalar da Joint British Diabetes Societies (revisão de 2023) e dos Standards of Care 2026 da ADA, que recomendam cerca de 15 g de glicose para a pessoa consciente e repetição se a hipoglicemia persistir aos 15 minutos. A diretriz britânica prefere glicose a 10% ou 20% à de 50%, mais hipertônica e com mais risco de flebite e necrose se extravasar.

O glucagon funciona puxando o glicogênio guardado no fígado. Por isso ele rende pouco em quem tem pouco estoque: o etilista, o desnutrido, o hepatopata. A diretriz britânica também avisa que ele é menos eficaz na hipoglicemia por sulfonilureia. Nesses pacientes, a glicose venosa é a primeira escolha.

Tiamina no etilista · junto, sem atrasar a glicose

O ensino tradicional mandava dar tiamina antes da glicose no etilista, pelo medo de precipitar encefalopatia de Wernicke. A revisão de Schabelman e Kuo (Journal of Emergency Medicine, 2012) reuniu 19 trabalhos, nenhum acima de relato de caso, e concluiu que atrasar a glicose do paciente hipoglicêmico não se justifica. A tiamina vem junto ou logo depois. O risco descrito nos relatos está na glicose prolongada sem tiamina.

Os números que orientam a conduta

Três números da hipoglicemia
Glicose do nível 2 da ADA
54
mg/dL, abaixo disso a hipoglicemia é clinicamente importante
Glicose venosa para quem não engole
20 g
100 mL de glicose a 20% ou 200 mL a 10%, em 15 minutos
Risco que persiste depois da última dose de sulfonilureia
24 a 36 h
mais longo com insuficiência renal

Infográfico Aevora, elaborado a partir dos Standards of Care 2026 da ADA e da diretriz de hipoglicemia hospitalar da Joint British Diabetes Societies (2023). A mesma diretriz britânica pede glicemia capilar regular por pelo menos 24 a 48 horas depois do evento.

Achar a causa · o paciente com diabetes

Na pessoa com diabetes, a pergunta é qual remédio e por que agora. A diretriz da Endocrine Society diz que, em todo paciente com hipoglicemia, a medicação deve ser considerada primeiro. Os culpados quase sempre são a insulina e os secretagogos: sulfonilureias, como glibenclamida e glimepirida, e glinidas. A ADA lembra que a combinação de insulina com sulfonilureia aumenta ainda mais o risco.

O gatilho costuma estar em volta do remédio: parou de comer por diarreia ou doença aguda, a função renal piorou e deixou o remédio circulando por mais tempo, a dose subiu na última consulta, houve álcool. A creatinina entra em todo atendimento, porque muda a duração do risco.

A sulfonilureia é a causa que mais pede atenção na decisão de alta. Ela continua estimulando o pâncreas a liberar insulina por horas. A paciente acorda, come um lanche, recebe alta e volta em coma de madrugada. A diretriz britânica avisa que o risco pode persistir por 24 a 36 horas depois da última dose, mais ainda com a função renal reduzida.

O que cada causa manda fazer
  1. 1
    Sulfonilureia, principalmente com rim pioradoInternar e observar. Glicose a 10% contínua, glicemia capilar seriada, sulfonilureia suspensa. Hipoglicemia que volta apesar da glicose pede octreotida.
  2. 2
    Insulina rápida, com causa clara e corrigidaHipoglicemia por insulina de ação curta, com paciente comendo e acompanhado, pode ter alta depois de observação, com ajuste de dose e orientação.
  3. 3
    Insulina de ação longa ou dose muito acima da habitualObservação prolongada com glicemia seriada, pelo risco de hipoglicemia que se repete por horas.
  4. 4
    Etilista, desnutrido, hepatopataGlicose venosa como primeira escolha, tiamina junto, e procurar a doença associada: infecção, sangramento, pancreatite.
  5. 5
    Sem diabetes e sem remédio que expliqueProcurar doença grave e investigar pela tríade de Whipple, com amostra colhida durante a hipoglicemia.
Sulfonilureia com rim piorado · internar Glicose venosa a 10% ou 20%, em dose certa Acordar com a glicose encerra só a primeira etapa

A octreotida bloqueia a liberação de insulina pelo pâncreas. No ensaio de Fasano e colaboradores (2008), uma dose única de 75 microgramas subcutânea, somada ao tratamento padrão, manteve a glicose mais alta por 8 horas e reduziu as recorrências. A revisão de Dougherty e Klein-Schwartz (2010) sustenta o uso junto com a glicose suplementar.

Achar a causa · o paciente sem diabetes

Hipoglicemia em quem não tem diabetes é rara e quase sempre aponta para algo sério. A diretriz da Endocrine Society divide as causas em dois grupos. No paciente doente ou medicado: álcool e outros fármacos, insuficiência hepática, renal ou cardíaca, sepse, desnutrição grave, deficiência de cortisol e tumores que não são das ilhotas pancreáticas. No paciente aparentemente bem: hiperinsulinismo endógeno, como o insulinoma, e a hipoglicemia acidental, oculta ou provocada por outra pessoa com insulina ou secretagogo.

O primeiro passo é confirmar a tríade de Whipple: sintomas compatíveis, glicose baixa medida por método confiável e alívio dos sintomas quando a glicose sobe. Sem a tríade, a investigação não começa. No pronto-socorro, o paciente doente costuma ter a causa à vista: sepse, insuficiência hepática, intoxicação alcoólica, insuficiência adrenal. O paciente aparentemente bem é o que precisa de exame dirigido.

A amostra colhida durante a hipoglicemia
PadrãoInsulinaPeptídeo CSulfonilureia no sangue
Insulina exógenaAltaSuprimidoAusente
InsulinomaInapropriadamente altaInapropriadamente altoAusente
Secretagogo · sulfonilureia ou glinidaInapropriadamente altaInapropriadamente altoPresente
Sem mediação por insulina · sepse, fígado, álcool, cortisolSuprimidaSuprimidoAusente

Infográfico Aevora, elaborado a partir da tabela 3 da diretriz da Endocrine Society (Cryer et al., 2009). Com glicose abaixo de 55 mg/dL, insulina de pelo menos 3 microunidades por mL, peptídeo C de pelo menos 0,6 ng/mL e beta-hidroxibutirato de até 2,7 mmol/L indicam hipoglicemia mediada por insulina. A dosagem de sulfonilureias e glinidas separa o secretagogo do insulinoma.

No paciente sem diabetes e sem causa à vista, um tubo de sangue colhido no mesmo acesso, antes da glicose e sem atrasá-la, guarda a amostra feita durante a hipoglicemia. Sem ela, o paciente pode precisar de um jejum supervisionado de até 72 horas para reproduzir o quadro.

Os limites

A tríade de Whipple pede glicose medida por método confiável, e a glicemia capilar perde precisão na hipoperfusão. Na pessoa com diabetes tratada com insulina, a Endocrine Society aceita tratar sem confirmar a tríade, porque a probabilidade é alta e o custo de não tratar é grande. O aumento da glicose depois do bolus varia muito entre pessoas, e só a glicemia repetida diz se a dose bastou. A octreotida se apoia em ensaios pequenos e séries de casos.

Na prática do plantão

Hipoglicemia, do primeiro minuto à decisão de alta
  1. 1
    Glicemia capilar em todo rebaixamentoJunto com via aérea, respiração e circulação, antes de pensar em AVC ou intoxicação.
  2. 2
    Corrigir pela via certaEngole: 15 a 20 g pela boca. Não engole: 15 a 20 g de glicose venosa a 10% ou 20%. Sem veia: glucagon 1 mg intramuscular.
  3. 3
    Sem diabetes e sem causa à vistaUm tubo de sangue antes da glicose, se não atrasar o tratamento. Tiamina junto no etilista e no desnutrido.
  4. 4
    Glicemia de novo em 10 a 15 minutosRepetir a dose até sair da faixa de risco, e dar carboidrato de absorção lenta quando acordar.
  5. 5
    Perguntar o remédio, a dose e o que mudouSulfonilureia, insulina de ação longa, jejum, diarreia, creatinina.
  6. 6
    Decidir o destino pela causaSulfonilureia ou insulina longa: internar com glicose contínua e glicemia seriada. Causa clara de curta duração, corrigida: alta com ajuste e orientação.
Glicemia em todo paciente confuso Corrigir em minutos, investigar em horas A causa decide a alta

A glicose na veia acorda o paciente em minutos e resolve a primeira metade do atendimento. A segunda metade é descobrir o remédio e o órgão que levaram à queda, porque a sulfonilureia com o rim piorado traz a hipoglicemia de volta horas depois de o paciente ter ido para casa.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Mulher de 74 anos, diabética, trazida pela filha porque não respondia, com glicemia de 38 na ambulância. Você vai corrigir a glicose, descobrir o remédio e o que mudou nos últimos dias, e decidir se ela pode ir para casa.

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Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

As emergências metabólicas do plantão, da hipoglicemia à cetoacidose, são tratadas caso a caso no curso de Urgências e Emergências.

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.